|
|
Por Odino Marcondes
O polonês Robert Wladyslaw Parzelski desembarcou em Cumbica no último mês de junho, sem falar uma palavra em português ou inglês. Seu contato não apareceu e ele lá ficou por 15 dias, sobrevivendo graças à ajuda dos faxineiros do terminal aéreo.
Não é o primeiro caso de pessoas que ficam longos períodos em aeroportos ao redor do mundo. O que diferencia este caso é que ele entrou legalmente no país, não era um apátrida como Merhan Karimi Nasseri que viveu entre 1988 a 2006 em um aeroporto de Paris, história na qual se basearam para fazer o filme O Terminal, com Tom Hanks.
O espantoso é que duas repartições públicas – Posto de Atendimento Humanizado dos Migrantes e a Delegacia de Polícia Civil do Aeroporto – e um consulado, o da Polônia, foram acionados e não fizeram nada pelo polonês.
A coordenadora do Posto de Atendimento Humanizado (sic) dos Migrantes disse que sua função é atender a brasileiros que são inadimitidos ou repatriados. Já a Delegacia se desculpou dizendo que “não havia denuncia contra ele”. O Assessor do Consulado disse “desconhecer o problema”.
E assim, ele sobreviveu graças aos faxineiros que compartilharam o resto das suas marmitas e cigarros com ele.
Sua situação só foi resolvida quando, por iniciativa do jornal “Folha de São Paulo”, um médico polonês foi levado ao aeroporto para conversar com o indivíduo, aí o Consulado se mobilizou.
Todos os que se omitiram tinham lá suas razões, todas elas calcadas nas normas. Esse território – das regras, leis e normas, não deveria ser usado para limitar a iniciativa, a coragem, a empatia e a solidariedade que, muitas vezes são as únicas determinantes do comportamento nas circunstâncias em que apelar à elas – as regras, é um sinal inequívoco de falta de protagonismo, de acomodação. Aí, o burocrata é um covarde que usa a norma para não correr riscos, para não fazer a única coisa certa naquelas circunstâncias.
Não foi por acaso que as pessoas que ocupam as funções mais simples no aeroporto é que se solidarizaram com o polonês. Exatamente por terem que travar uma luta diária pela sua sobrevivência, eles sabem muito bem o que é solidariedade e flexibilidade no comportamento.
No início da década dos anos oitenta, quando o Brasil passou por uma severa recessão, eu fiz um trabalho com líderes de uma indústria. O grupo estava dividido entre gerentes – todos com curso universitário, e supervisores – todos sem formação superior. Diante de uma situação dada, os que reagiram com maior flexibilidade, jogo de cintura e prontidão foram os supervisores. Todos estavam mais aptos a sobreviver por conta da sua capacidade de abrir mão do status – pouco, é claro –, do domínio de habilidades universais e da certeza que poderiam contar com uma rede de solidariedade.
No caso do aeroporto, as desculpas dadas pelos que se omitiram, são típicas de quem entrou dentro de uma caixa e não ousa romper as paredes para fazer algo que, embora eventualmente fora das suas atribuições, era o que tinha que ser feito naquele momento, algo simples como chamar um tradutor, ou colocar o sujeito num carro e mandá-lo para o consulado do seu país.
Ah! Mas isso é muito trabalho para quem quer o conforto das normas!
Por Odino Marcondes
Estive recentemente numa pousada para pescadores no sul do Pará. Pude observar como, para certas pessoas, as normas não se transformaram em valores. Vários deles eram fumantes e como o Pará ainda não proíbe o fumo em lugares fechados eles não tinham o menor constrangimento em fumar no restaurante da pousada.
Como eu sabia que vários dos fumantes eram originários de São Paulo, é fácil constatar que quando eles não fumam em lugares fechados em São Paulo eles estão se comportando apenas de modo responsável: cumprem a lei. Quando a lei muda, o comportamento desaparece.
Este, aliás, é o teste para verificarmos se uma lei ou norma foram introjetados como valores: retire a pessoa da sua “conserva cultural” e veja como ela se comporta.
Fui questionado um dia, por uma participante durante uma palestra, quando eu afirmei que eu deixara de dirigir depois de ingerir bebidas alcóolicas. Ela argumentou que eu não havia incorporado um valor novo – como eu afirmara anteriormente, mas sim aplicado um valor antigo: a responsabilidade. Minha resposta: apesar da minha convicção de que havia incorporado um valor novo, o verdadeiro teste somente ocorreria quando em viagem a um país mais tolerante quanto ao consumo de álcool eu deixasse de dirigir depois de beber, ainda que a lei – externa – não me obrigasse a isso. Eu estaria obrigado apenas pela lei interna: meus valores.
O grande benefício da internalização das leis é que precisamos de menos guardas nas ruas: nós já carregamos o nosso próprio. Isto se chama civilização!
Por Antonio Amorim
“A fraqueza do homem raramente
é mais do que o uso excessivo de suas forças”
Eric Fromm
O termo LIFO corresponde à contração de “Life Orientations”(Orientações de Vida).
Como resultado de nossas experiências de vida e aprendizado, cada um de nós desenvolve um perfil ou conjunto de orientações único e característico, como dizem os autores do livro Gerenciando suas Forças , Alan Katcher P.h.D. & Kenneth Pasternak.
UMA INTRODUÇÃO AOS ESTILOS LIFO
O método LIFO apresenta quatro principais orientações de vida, ou estilos, que visam atender às necessidades básicas que todos nós experimentamos na vida em diferentes graus.
1) APOIANDO E DANDO – Foco: Excelência
Meta: Provar seu Valor
Forças: ser idealista, leal, cooperativo, receptivo, modesto, sensível, confiável
Excessos: perfeccionista, estóico, ingênuo, utópico, auto-anulador, teimoso.
2) CONTROLANDO E TOMANDO – Foco: Ação
Meta: ser competente e obter resultados
Forças: diretivo, potente, rápido para agir, competitivo, confiante, assume riscos. Excessos: dominador, agressivo, impulsivo, só competitivo, arrogante.
3) MANTENDO E RETENDO – Foco: Razão
Meta: estar seguro e reduzir riscos.
Forças: obstinado, analítico, prático, perseverante, econômico, metódico, factual,.
Excessos: burocrático, pedante, sem imaginação, detalhista, retraído, só mental.
4) ADAPTANDO E BARGANHANDO – Foco: Harmonia
Meta: conhecer as pessoas e dar-se bem com elas.
Forças: flexível, adaptável, diplomático, inspirador, sociável, experimental, animado.
Excessos: inconsistente, insincero, astucioso, manipulador, frívolo, “animado”.
Quando nossas forças são usadas em excesso, elas podem ser contraproducentes; elas se tornam, de fato, as nossas fraquezas. E então? Você conseguiu se encontrar em algum deles? Nas forças e nos excessos (fraquezas)?
Em última análise, o Método LIFO é uma poderosa abordagem para o autoconhecimento, para a gestão de forças e para a melhoria do desempenho. para uma ampla variedade de situações, tanto no seu trabalho quanto na sua vida pessoal.
Por Gilvan Azevedo
Se uma empresa, para ser considerada boa, deve ser tão acolhedora quanto as suas pessoas, há muito com o que se preocupar. Margaret Wheatley, autora do livro “Finding Our Way: Leadership for an Uncertain Time”, numa entrevista a uma revista de negócios que li há algum tempo, ressaltava como tem aumentado dramaticamente a extrema tensão dos empregados e a pressão sobre os líderes. Eles não têm mais tempo ou flexibilidade. Não há muita novidade nisto, mas é importante perceber o quão as pessoas sentem-se presas, oprimidas e exaustas diante da complexidade cada vez maior. A demanda por resultados rápidos e a pressão as deixam sem tempo para desenvolvimento ou aprendizagem.
Em geral, os líderes reagem: “Esqueça sobre valores, aprendizagem ou participação. Nós só precisamos executar”. Ou “Vamos ser pragmáticos!”. O que eles querem dizer é: “Consiga resultados agora!”. Nestes tempos de revoluções no mundo árabe e para além do significado implícito e não tão amigável em “executar”, quando o medo toma conta e o risco aumenta, diversos líderes adotam a conhecida postura de comando e controle.
Isto tudo é agravado pelo impacto da intensa e constante conectividade, com a intensificação da comunicação sob as mais variadas formas. Para ficarmos em um exemplo simples, o e-mail trouxe um grande aumento da carga de trabalho e, simultaneamente, uma redução gigantesca na nossa capacidade de prestar atenção. Nós estamos tão sobrecarregados de informações que estamos nos tornando entorpecidos. O e-mail também tira a necessidade de se encontrar, o que provoca muitos mal-entendidos e, no final, afeta os relacionamentos. Hoje as pessoas lidam até mesmo com questões difíceis por e-mail, mesmo que elas sejam vizinhas de sala ou estejam no mesmo corredor. É comum comportamentos como as pessoas usando seus “smart phones” ou enviando torpedos por baixo da mesa nas reuniões ou mesmo explicitamente.
Há também um intenso foco em resultados de curto prazo à custa de tudo o mais. Há uma pressão para fechar projetos o mais rápido possível e em prazos irrealistas. Poucos param para ter uma visão mais ampla. Aparentemente, ninguém pode esperar mesmo que um tempo curto até que algo seja “concluído” com um mínimo de apreciação sobre qual é mesmo o problema. Apesar de sabermos que isto é uma armadilha , ainda assim continuamos comprometidos com a dinâmica do “é para ontem!”. Parece até que a grande maioria desistiu de pensar, mas possui uma série de roteiros que são sacados da manga e que servem para diversas situações (como aqueles “scripts” do serviço de atendimento ao cliente!). Entramos numa era em que cremos que um cliente ou chefe pode pedir para antecipar qualquer coisa sem perda de qualidade. O pensamento é que não há por que se preocupar sobre o fato de uma decisão hoje poder afetar o resultado de longo prazo.
Não é à toa que mais e mais percebemos preocupações com o engajamento das equipes. Isto é mesmo o que se deve esperar quando menos pessoas são quase que forçadas a realizar mais, em prazos mais curtos, utilizando métricas eventualmente sem significado para medir o trabalho delas e, para coroar, às vezes sendo tratadas de forma não respeitosa.
A questão que surge é, então: Ora, se os líderes percebem o problema – ou estariam mais preparados para tanto -, por que tal comportamento persiste? Talvez os próprios líderes não saibam como lidar com a incerteza. Eles não conseguem planejar até mesmo o seu próprio futuro!
Apenas lamentar-se não resolve. O ponto provavelmente está em enfrentar a realidade como ela é, reconhecendo o que pode ser verdadeiramente alcançado dada esta poderosa dinâmica cultural da organização em que se está inserido. Certamente é fundamental refletirmos sobre isto (será que dá tempo?), encontrar sua forma de lidar com este dado da realidade e ajudar os membros da equipe e/ou colegas a perceber suas competências, valores, talentos ou criatividade, abrindo-se para aceitar novas ideias e atuando como um facilitador e líder-coach. Sem dúvida, um grande desafio!
Por Gilvan Azevedo
Tem sido comum escutar generalidades sobre inovação ou exortações genéricas como “vamos nos tornar os mais inovadores”, “os melhores em gestão do conhecimento”, etc., sem objetivos reais e específicos além destes exemplos genéricos, que não significam um convite à ação, ainda mais quando também estão presentes restrições de recursos, ferramentas e mesmo liderança e talento.
Há diversos exemplos de indústrias inteiras que a duras penas tiveram de passar por uma curva de aprendizado de alterações apenas incrementais nos produtos e serviços até que o paradigma de criação de riqueza fosse realmente alterado.
Um exemplo é o da indústria automobilística, que entrou em um processo de declínio, especialmente nos Estados Unidos. Globalmente, talvez com a honrosa exceção da BMW, a questão crucial era somente como os fabricantes presentes em economias avançadas conteriam a onda de competição dos países ditos emergentes – China, Índia e Coréia do Sul.
A ampliação contínua do grau de sofisticação em modificações incrementais relacionadas a aerodinâmica, nível de conforto e resposta do motor, foi uma tentativa de criar diferenciação, porém somente nos últimos dois anos, a indústria automobilística tem começado a se transformar, através de uma modificação da perspectiva sobre mobilidade nas grandes cidades, apenas para citar uma das formas de reinvenção, na qual a propriedade deixa de ser o foco primário de relação entre o indivíduo e o carro, passando-se a utilizar modelos de compartilhamento e assinatura.
Através deste exemplo, já dá para ver que a cultura dominante na indústria (ou na empresa) exerce uma influência significativa sobre os modos de pensar, às vezes dificultando o que pode ser alcançado em termos de inovação e geração de valor.
Embora o aprendizado com as mudanças incrementais seja também necessário para se chegar aos verdadeiros fatores de mudança do ambiente competitivo, uma “cultura de risco” combinada com outros fatores é o que pode fazer as inovações acontecerem.
A questão fundamental então passa a ser como criar e manter uma cultura de inovação, desenvolvendo-se líderes para inovação e equipes com competências e atitudes que permitam o florescimento de novas formas de pensar e agir na busca de geração de riqueza.
Por Gilvan Azevedo
“Consertar a cultura é a parte mais crítica – e a mais difícil – de uma transformação corporativa”. Esta frase do famoso ex-CEO da IBM, Lou Gerstner, fez-me pensar mais uma vez sobre a importância da cultura para os resultados de uma organização.
Pode-se dizer que a cultura é, potencialmente, um “ativo”. Ela se desenvolve independentemente de vontades. Olhando por um lado, ela pode mobilizar comportamentos e, sendo utilizada sabiamente, pode acelerar e trazer resultados sustentados de negócio. Por outro lado, ela pode drenar as emoções e a produtividade, levando a altos graus de entropia e então a resultados abaixo do esperado e problemas no longo prazo.
Em qualquer dos casos, uma cultura organizacional pode ser deliberadamente dirigida e influenciada para impactar positivamente o desempenho, ou ainda para minimizar a resistência em relação a mudanças de comportamentos.
Por Odino Marcondes
Foi com alguma desconfiança que baixei no ipad meu primeiro e-book, “Não há silêncio que não termine”, em que a ex-candidata à presidência da Colômbia, Ingrid Betancourt, relata os seus anos de cativeiro nas selvas colombianas quando foi capturada pelas Farc.
Meu amor pelos livros é antigo e eu costumo dizer que não viveria sem eles. Tenho um prazer especial em comprar livros, por isso acumulo mais do que posso ler, claro que sempre dou a desculpa, para mim mesmo, que eles podem se esgotar, e que, mais tarde, terei tempo para lê-los… etc.
Não obstante, nunca tive dificuldades ou restrições aos recursos da informática e acho que sempre fui um dos chamados “early adopter”, sofrendo mesmo o que alguém já chamou de “sentimento de privação relativa”: imediatamente depois que fico sabendo da existência de um gadget, eu sinto que “não posso mais viver sem ele”! Não tive nenhuma dificuldade para abandonar a máquina de escrever tão logo conheci o primeiro computador (286!) e o meu primeiro laptop – um “toshibinha”, como chamávamos, pesava uns 8 quilos!
Mas, com livros eu achava que seria diferente, ler um e-book era como uma traição ao velho livro de papel. Todavia, mal comecei e me dei conta de como pode ser maravilhosa a experiência de ler um livro num ipad. Com exceção do cheiro do papel, as demais sensações estão lá, podemos “virar” a página, o peso é semelhante ao de um livro de papel, podemos fazer anotações, etc.
No seu livro Ingrid faz muitas menções a Rádio Caracol, de Bogotá, que transmitia diariamente as mensagens dos parentes dos sequestrados, eles aguardavam ansiosamente o momento das transmissões. Pois bem, com um dos aplicativos mais interessantes do ipad disponíveis na Apple Store, TuneIn Radio, baixado por US$ 0,99, eu sintonizei na hora, enquanto lia, a Rádio Caracol. Em outro momento ela observou as coordenadas do local onde estavam em um GPS nas mãos do comandante do campo, memorizou e transcreveu no livro, acessei o Google Earth e localizei o campo onde ela estivera – num livro de papel poderia haver um mapa, é claro, mas a busca faz parte importante da experiência!
Em outro ponto ela menciona um dos mais importantes líderes das Farc – Mono Jojoy – entrei no Google e acessei todo o histórico dele. Aqui, o detalhe importante, ele foi morto depois que ela escreveu o livro, portanto, eu acessei informações atualizadas: fotos, depoimentos, o relato detalhado da sua morte, etc.
Quando, por exemplo, ela menciona que “Stairway to Heaven”, do Led Zeppelin era o seu “hino à vida”, abri imediatamente o You Tube e reproduzi a música.
Pode-se argumentar que, exceto no caso da Rádio Caracol, e da música do Led Zeppelin, todas as outras informações poderiam estar em livros de papel ou outras mídias impressas. O fantástico do ipad é poder ter, em uma única mídia, todas essas informações, ao mesmo tempo em que o livro é lido e com um simples toque do dedo.
Sinto que não vou abandonar os livros de papel, mas os e-books, definitivamente, se incorporaram ao meu mundo. E você, já leu um e-book?
Por Gilvan Azevedo
Compartilho aqui uma versão de uma postagem que havia feito no meu blog pessoal (Djeh – Um Blog de Interesses). Sem deixar de desculpar-me pela auto-referência, creio ser relevante o comentário sobre este livro do filósofo Felix Guattari que, em um texto curto e escrito no final dos anos 80, propunha uma nova forma de pensar, em que a humanidade teria de retornar à sua condição de um ser integrado ao mundo, e não a de um ser fragmentado e isolado, o que significa dizer a busca de uma transformação nos modos de pensar e agir no mundo.
Hoje, em meio ao paradoxo de exacerbadas conexões e inquietantes fragmentações, essa ideia se torna ainda mais atual: o autor propõe uma reinvenção dos modos coletivos de ser. Sua “ecosofia” é muito benvinda, já que vivemos um tempo em que parece haver um colapso das relações humanas.
Trata-se de uma nova maneira de pensar as nossas relações com o meio-ambiente, com a sociedade e até mesmo com a nossa própria subjetividade. Uma leitura fundamental e obrigatória, que nos faz pensar sobre como a humanidade quer viver neste planeta daqui para a frente.
Citando o autor, ele afirma que “os modos de vida humanos individuais e coletivos evoluem no sentido de uma progressiva deterioração“. Mas o que Guattari quer dizer com “modos de vida”?
Sem pactuar com conservadorismos sociais, ele aponta que as formas de convivência que ajudaram o ser humano a se perpetuar têm sido paulatinamente substituídas por imediatismos, fazendo com que o homem torne-se um “objeto” que se deixa manipular por tendências e consumismos, abrindo mão de sua realidade em que vive para se inserir numa subjetividade estereotipada.
Não é preciso alongar-se muito no levantamento de fatos que, com um olhar crítico mínimo, pode-se perceber nos dias que correm, quando a maioria dos seres humanos seguem a vida como zumbis em meio à “necessidades” meramente financeiras. Talvez não se precise também insistir no diagnóstico de que é necessária uma reinvenção dos modos de vida, que possam levar a uma vida intensa nos planos individuais, assim como em modos também voltados para a manutenção da vida em si, no longo prazo e no plano coletivo.
Porém, é preciso alertar que a transformação de um grupamento passa pela transformação dos indivíduos e a chave para isto passa também pela retomada da subjetividade de cada um deles. Tal subjetividade tem a ver com uma espécie de combinação de “chaves transversais” simultâneas, que conectam o ambiente, os agenciamentos sociais e institucionais e as escolhas de cada um.
Percebermos o mundo não como ele é, mas sim como nossas estruturas de percepção nos permitem percebê-lo – como apontava Edgar Morin em seus estudos sobre a complexidade – parece então ter uma influência decisiva sobre as escolhas que viremos a fazer. Para então pensar e agir de outra maneira, precisamos primeiro mudar nossas estruturas de percepção.
Tudo se conecta e como mais uma vez reforça Guattari, “a reconquista de um grau de autonomia criativa num campo particular invoca outras reconquistas em outros campos“.
Por Gilvan Azevedo
Na eterna arrumação dos livros em casa, “reencontrei” o livro de bolso “Sobre a Brevidade da Vida, de Sêneca (4a.c.?-65d.C). Pérolas de sabedoria por apenas cerca de R$ 8,00 (!) na edição de bolso da LP&M. O pequeno livro é, na verdade, um conjunto de cartas escritas há quase dois mil anos, dirigidas a Paulino (supostamente o sogro dele, mas cuja identidade é controversa), nas quais o filósofo e sábio discorre sobre a natureza finita da vida humana. É um dos textos mais conhecidos de toda a Antigüidade latina. Para mim, de vez em quando é sempre bom retomar os clássicos. Reli então trechos interessantes que havia destacado.
Nestes abaixo, Sêneca nos alerta para a correria em que vamos entrando, uma inútil postura que é uma fonte significativa de stress. Ele não recomenda a preguiça, apenas diz para evitarmos a falsa operosidade e a fútil agitação.
- “(…) Não temos exatamente uma vida curta, mas desperdiçamos uma grande parte dela.”
- “Pequena é a parte da vida que vivemos (*). Pois todo o restante não é vida, mas somente tempo.” – (*) aqui, Sêneca parece citar o poeta Virgílio.
- “(…) Quantas vezes o dia transcorreu como o planejado? Quando usaste teu tempo contigo mesmo? Quando mantiveste uma boa aparência, o espírito tranqüilo? Quantas obras fizeste para ti com um tempo tão longo? Quantos não esbanjaram a tua vida sem que notasses o que estavas perdendo? O quanto de tua existência não foi retirado pelos sofrimentos sem necessidade, tolos contentamentos, paixões ávidas, conversas inúteis, e quão pouco te restou do que era teu?…”.
- “(…) Nada está mais longe do homem ocupado do que viver.”.
- “Cada um se lança à vida, sofrendo da ânsia do futuro e do tédio do presente. Mas aquele que utiliza todo o tempo apenas consigo mesmo, que organiza todos os dias como se fosse o último, não deseja, nem teme o amanhã.”.
Aqui, um alerta para a necessidade de escolhas conscientes e atenção ao que se passa à nossa volta:
- “Do mesmo modo que uma conversa, uma leitura ou qualquer outra reflexão maior desvia a atenção do viajante, que, de repente, se vê chegando ao seu destino sem perceber que dele se aproximava, assim é o caminho da vida, incessante e muito rápido, que, dormindo ou acordados, fazemos com um mesmo passo e que, aos ocupados, não é evidente, exceto quando chegam ao fim.”.
E um trecho, ainda não no final, mas que para mim é a síntese do livro, antecipando os conceitos explorados pelo filósofo francês Henri Bergson, para quem o homem tem uma tendência a misturar espaço-tempo (extensão-duração) e matéria-memória (percepcão-lembrança).
- “(…) Algo se perde no passado? Ele recupera com a memória. Está no agora? Ele desfruta. Há de vir com o futuro? Ele antecede. A união de todos os tempos em um só momento faz com que sua vida seja longa.”.
Uma leitura inspiradora que, mesmo sem nos trazer grandes novidades, nos cativa pela forma simples com que o autor nos alerta para diversos aspectos das nossas vidas, sem nem mesmo deixar de utilizar um certo humor, como na passagem à página 43:
- “(…) Não julgues que alguém viveu muito por causa de suas rugas e cabelos brancos: ele não viveu muito, apenas existiu por muito tempo.”.
Por Gilvan Azevedo
Na noite de quinta passada, eu estava revendo os “slides” que eu planejava usar para uma sessão de três horas com um cliente no dia seguinte. Os dois últimos, que seriam a mensagem final para o grupo de líderes da empresa pareciam não ser suficientes para o efeito que eu gostaria de causar nas mentes deles no fechamento da apresentação sobre “Os Desafios da Mudança”.
Como finalizar aquela apresentação? Por alguma razão, eu pensei mais uma vez sobre o poder de boas perguntas, ao contrário da tendência natural de querermos prover respostas. Lembrei então que tinha na estante um ótimo livro de Peter Block que havia lido há algum tempo: “The Answer to How Is Yes: Acting on What Matters”. Nele, o autor nos pede para, ao invés de nos apegarmos a questões relacionadas a como fazer as coisas, buscarmos questões de compromisso afirmativo.
Evidentemente, é preciso saber como os projetos e as iniciativas acontecerão e as questões “Como” são também válidas dentro do seu contexto e do momento, porém elas não podem servir de desculpas ou justificativas para não se apostar nas escolhas difíceis a serem feitas durante a mudança, nem como uma forma disfarçada de não se dizer claramente o que traz preocupação ao projeto.
Assim, adaptando tais perguntas para o contexto do cliente, apresentei questões como: “Que compromisso estou disposto a assumir?” em vez de “Quanto tempo vai levar?”, ou “Qual é a minha contribuição para o problema que me preocupa?” em lugar de “Como se faz para essas pessoas mudarem?”.
Esta mudança de perspectiva, na qual se adota uma atitude protagonista ao invés de uma em que o problema é do “outro”, pode fazer toda a diferença.
|
|